A conquista do Campeonato Brasileiro Feminino pelo São Paulo, confirmada na tarde de sábado (3) no estádio do Morumbis, ganhou contornos políticos ainda no gramado. Ao fim do empate por 1 a 1 com o Corinthians, resultado que, somado à vitória por 2 a 1 na primeira partida, assegurou o troféu ao Tricolor, a goleira Carlinha encerrou a entrevista pós-jogo com uma frase contra a volta da família Bolsonaro ao poder federal.
Sem revelar em quem pretende votar nas eleições previstas para o dia seguinte, a atleta direcionou a crítica ao senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que concorre a novo mandato. A manifestação ocorreu enquanto repórteres ainda coletavam reações ao título.
Comemoração tricolor e recado político
Carlinha foi um dos principais nomes da decisão. Ainda no primeiro tempo, uma reposição de bola errada da goleira terminou nos pés da lateral Juliete, que abriu o placar para o Corinthians. O erro, porém, não abalou a jogadora. Na etapa final, ela defendeu um pênalti cobrado por Gabi Zanotti e evitou a virada alvinegra. Pouco depois, a meia Ariel empatou para o São Paulo e garantiu a vantagem obtida na Neo Química Arena.
Após o apito final, a goleira destacou a segunda chance que o futebol costuma oferecer aos atletas dentro de um mesmo jogo. Em seguida, comentou que o título era dedicado à família presente no estádio, lembrando o aniversário da avó celebrado no mês anterior. Na sequência, encerrou sua fala com o posicionamento contrário ao retorno do clã Bolsonaro ao Executivo.
Bolsonaro surge no centro do pós-jogo
A declaração rapidamente se espalhou pelas redes sociais e dividiu opiniões entre torcedores. Embora não tenha indicado candidato específico, a menção explícita ao sobrenome Bolsonaro conectou o tema esportivo ao ambiente eleitoral efervescente na véspera do pleito. O São Paulo não se manifestou institucionalmente sobre a fala de sua jogadora até a noite de sábado.
Internamente, dirigentes do clube consideram que o elenco tem liberdade de expressão desde que não viole regulamentos ou comprometa a imagem da instituição. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não registrou queixa referente ao episódio e não há indicativo de punição disciplinar, já que o Estatuto do Torcedor não proíbe manifestações políticas individuais dentro de zona mista.
Defesa decisiva sustenta vantagem
O duelo de volta foi disputado diante de mais de 30 mil pessoas no Morumbis, público recorde para a equipe feminina do São Paulo nesta temporada. Logo aos 12 minutos, a falha de Carlinha resultou no gol alvinegro. O Corinthians precisava de nova bola na rede para levar a decisão aos pênaltis, mas esbarrou na arqueira tricolor aos 22 do segundo tempo, quando Zanotti desperdiçou a cobrança máxima.
O empate consumado por Ariel, em chute colocado de fora da área aos 34, deu números finais ao confronto e consolou as jogadoras são-paulinas, que haviam perdido as duas últimas finais disputadas contra o rival. Com o triunfo agregado de 3 a 2, o São Paulo levantou o Brasileirão Feminino pela primeira vez desde a reformulação da categoria em 2013.

Imagem: redir.folha.com.br
Título brasileiro impulsiona visibilidade
A taça coroa campanha marcada por superação. O elenco, dirigido por Thiago Viana, terminou a primeira fase na terceira colocação, eliminou Ferroviária e Internacional até encontrar o Corinthians na decisão. Carlinha, de 24 anos, foi titular em 18 das 21 partidas e acumulou nove jogos sem sofrer gols, números que a colocam entre as goleiras mais eficientes do torneio.
O clube planeja agora encorpar o projeto feminino. Entre as prioridades estão a renovação de contrato com jogadoras-chave e a ampliação da estrutura de base. A visibilidade obtida com o título, potencializada pela repercussão do posicionamento político de Carlinha, deve atrair patrocinadores interessados em associar marca a causas de igualdade de gênero e liberdade de expressão.
Repercussão do comentário sobre Bolsonaro
Nos bastidores do futebol, dirigentes de outras equipes avaliam que manifestações como a da goleira tendem a se tornar mais frequentes, sobretudo em ano eleitoral. A legislação eleitoral brasileira permite declarações individuais de atletas, desde que não envolvam propaganda partidária dentro de arenas esportivas financiadas com recursos públicos.
Analistas lembram que jogadores de destaque, tanto no masculino quanto no feminino, já se pronunciaram sobre temas políticos em diversas ocasiões. A diferença, argumentam, está no alcance das redes sociais, que multiplicam a velocidade com que um comentário repercute, ligando imediatamente esporte e política no debate público.
Enquanto isso, o São Paulo celebra o ineditismo da conquista. O troféu do Brasileirão Feminino se soma aos títulos da Copa do Brasil de 1997 e da Libertadores de 1999 no currículo do departamento feminino. Para Carlinha, além do momento esportivo, fica registrada a oportunidade de usar o microfone para expressar opinião em um palco de grande audiência.
O próximo compromisso oficial da equipe será a disputa da Supercopa do Brasil Feminina, prevista para fevereiro do ano seguinte. Até lá, diretoria e comissão técnica buscam manter o núcleo campeão, fortalecer categorias de base e aproveitar o ambiente positivo, alimentado tanto pelo resultado em campo quanto pela projeção alcançada fora dele.

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